5 coisas que detesto sobre a série.
consagração do dogma, dogma corrente como tal na cobertura do jornalismo cultural pop de protosumidades antenadas (ver blogueiros do IG, O Esquema), do “bom roteiro”. essa ideia cadavérica, desinstruída, de fã de iñarritu, meirelles, paul thomas anderson, de que arte cinética depende da boa história, do bom enredamento, do bom texto, e particularmente dos bons dribles. e mais: falando dos bons “dribles”, o que o shyamalan criou para o bem da obra dele e do mundo (a surpresa cronológica/ ambiental/ moral como um mecanismo narrativo de debate entre tempo, poder, cinema, e de fusão interlinguagens – quadrinhos e cinema) e kaufman para o mal do cinema (a surpresa como truque tecnicista, cosmético, fetichista) está integralmente em lost, que se cria uma relação prevalente com a habilidade do texto, esta é de dependência e cárcere. recondicionar o cárcere em exuberância é outro negócio… mas é um cárcere em primeira via realmente.
os fãs: basicamente o lucio ribeiro, o alexandre mathias e toda a lista de contatos deles no twitter. novelismo-BBB que se criou em relação a série, com efeito simbolizado por duas rotinas extrasérie e entre os fãs: o comentário frouxo sobre os personagens e os desdobramentos, no sentido “eu odeio Jack!”, “Jack é demais!”, “eu adoro o Locke”, a crítica ao estilo “nessa parte o bolo desandou”, simultânea ao desenvolvimento da série, tipo “não gostei do que eles encontraram na casa da floresta”, como se a série fosse um reality-game que pudesse servir a uma relação passiva de satisfação ou não das vontades dos “clientes”. se esses caras todos da cultura pop “especialista” estão entre os maiores publicitários do brasil, não é estranho que a coisa tenha ido por esse rumo no campo-extra.
o fato dos criadores não terem nitidamente explorado 80 % das possibilidades que a história permitiria, em nome de uma conservação dos fluxos narrativos “obrigatórios” e mais próximos do “convencional aceitável” para uma produção que atingiria 15 milhões de expectadores. se o estado máximo de criação da série é o embaralhamento do tempo a partir de um determinado ponto, seria coerente imaginar o além-do-imaginável na quarta temporada e na quinta também, que foram relativamente tímidas, ambas. por outra via, as partes absolutamente descartáveis do fluxo convencional da série dizem respeito a uma tentativa de caracterização afetiva de certos personagens (tipo kate) que descende do que o cinema indie americano criou de pior (ou seja, tudo: personagens-iconográficos-de-abusos, personagens humaninhos, personagens perdidinhos estilo sundance, etc).
essa ideia de hiperTV próxima do cinema (e para os mais desinstruídos em particular, de “TV que supera o cinema e se torna o novo cinema na primeira década deste século”) que o bruno sondou bem (google signo do dragão bruno andrade).
as “referências”, o mar de “referências”, essa especialização-nerdística que provém do pior que os quadrinhos legaram e que, pelo o fato dos nerds que sofriam nos anos 80 terem crescido e se vingado, passou a contar com o status de procedimento 1 de criação nos anos 00: o referencialismo construtivo, essa sublinguagem prima da publicidade;
na mesma linha, a pseudo-filosofia, e com efeito o posicionamento da série – por uma via expressa paralela à da eleição do obama (não falo aqui dele por causa ele, mas pelos seu quorum evangelizado-crente) – como indicativo e mola-simbológica da vitória dos valores “humanos” de “origem”, os “valores castos” (intuição, fé, ocultismo) sobre a perigosa, perniciosa e limitada ciência. esse tique neo-esquerdinha de vegetarianista fanático, meio que legitimado pela série. talvez a última temporada desminta isso.
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5 coisas que gosto sobre ela.
a extrema dedicação em se criar um universo palpável durante 6 anos, o que torna a revisita às temporadas anteriores uma jornada aconchegante e testemunho de um trabalho sólido de lapidação de um mundo próprio e extenso – o que talvez seja de fato a grande vocação da TV, mas quem sabe não explorada até hoje com o cuidado com que foi durante os anos da série.
a pulsação progressiva da série ao articular flashbacks e, mais tarde, flashforwards. no começo, os flashbacks vão do insosso ao justificável, do justificável ao instigante, até explodirem numa massa perfeitamente coerente e impressionante chamada futuro. o que prova que os backs não eram ferramentas explicativas de alicerçamento (o que seria já perfeitamente solicitável por/ para uma série de TV), eram simplesmente células conexas que, como num tema pós-rock, existiam para poderem ser desconectadas e desesturturadas depois – pelo prazer de se exercitar isso. não um tecnicismo episódico, mas uma performance em cima da aventura narrativa.
na outra mão do culto ao roteiro esperto, eu gosto da maioria das reviravoltas, sobretudo as que, ao estilo shyamalan, debatem sobre o efeito e as dobras misteriosas da própria ficção e do tempo. e criam sim, tensão formidável. algo que, lá pela quarta temporada, chega onde deve chegar e representa de certa forma um lugar onde o shyamalan não teve coragem ou interesse de chegar para flertar em seu projeto dialético de cinema – a viagem no tempo. acho que poderia haver mais, e mais, mas mesmo assim a coisa encanta.
na outra mão dos personagens, eu gosto do conteúdo sentimental de boa parte deles, ainda que suas caracterizações perpassem a filosofia de cultura-pop barata e cinema indie americano (ou seja cinema ruim). de alguns menos. por exemplo, se a kate é cria pura de sundance, não deixa de expressar alguma verdade, fora que ben é um tipo realmente impressionante.
o que há de profundamente john ford na linha-mestra da série, que é, reduzindo em última análise, uma obra bem “country” da história de um lugar e do que os homens lançaram mão para constitui-lo. trilha muito acima da média do giacchino é um instrumento bastante favorável a esse tipo de estilo de comentário/ investigação.
+
no gtalk agora há pouco, pra complementar:
“claudio: era uma análise sentimental mesmo, não queria ser perfeito
mas numa próxima abordo o fato de até em lost tudo ser sobre namoro.
eu fico puto e encantado toda vez que vai começar temporada
fico vendo na globo
no axn
fico notando as pessoas criando a novela em torno
claudio: e chego à conclusão que lost eh uma gande bobagem mesmo, um grande livrão de auto ajuda pra essa favelinha cultural que frequenta balada indie.
mas no fundo tem coisas encantadoras mesmo, embora seja tudo maneirismo.”