então, o diego franco me entrevistou no gtalk outro dia. vou reproduzir a matéria aqui. formalidades como o abre e as fotos tão na versão integral. procurem nas bancas e na internet.
Diego: entre 0 e 0,1, qual a chance de vc ir ver nuda no berlin?
eu: no berlin, se fosse uma sexta, não-dia de festa, seria de quase 40 %. mas eu confesso pra vc que não tenho paciência alguma pra quem vai ver geralmente, pro recifismo de paulistano e de recifenses paulistanos. é uma galera bem estatal. daí abaixa muito.
Diego: hm. já viu nuda ao vivo?
vale.
eu: tô ligado. mas to cansado de dizer, pra mim show é que nem circo. é ilusionismo, se vc ama uma banda, vale eventualmente, se vc quer se entregar, vale muito, mas não tem nada a ver com música. no caso não me conectaria com a banda sabendo do entorno, e jah conhecendo a banda etc, respeitando suficientemente ela. esse papo de que pra conhecer uma banda precisa ver ao vivo é de quem não entende de musica. eventualmente uma banda é OUTRA banda no show, aí é maneiro tb.
Diego: vc costuma ouvir a música erudita de entre 40/60? traz algo deles pra agora? sou bem begginer nessa seara, mas identifico entre eles e vc uma imaginação em comum.
eu: eu ouvi já, mas o que faço tem a ver mais com o hip hop, que é a coisa de uma linha que não tava prevista pelos ouvidos, que é legal, e da perpetuação circular dessa linha porque ela leva a algum lugar – via repetição. o “problema” é que no hip hop moderno em si, ela é usada tradicionalmente como facilitador, como uma base pruma rima, geralmente, eu quero o mínimo dela e quero usar o minimo dela para perpetuar um sentido. isso em outras palavras se chama hedonismo musical, é o que o animal collective faz tb (eles na verdade abriram essa porteira contemporaneamente), mas com mais instrumentos e com uma postura, hoje, de fato mais pop, no sentido beatleniano mesmo. eu sou barroco por outro lado tb, e por isso eu tiro essas linhas básicas de raciocínios barrocos. existe certamente o meu hedonismo musical e música hedonista. são coisas diferentes. hoje o brasil se liga mais em música hedonista. ela não é necessariamente ruim, bem pelo contrário eventualmente (depende da alma criativa por trás), e é melhor do que rock universitário.
Diego: bonito isso do hip hop. e por isso q o clipe na pista de skate (epicentro) ficou mestre, mas teu “hip hop”, menos que rima, abdica mesmo é de ritmo. alguns ouvidos se ofendem com isso, e eu diria q é justamente os mais hedonistas.
eu: é, porque minha leitura de hip hop é hedonistica no sentido de achar a “linha perfeita”. batida é pra dançar, e esse hedonismo é fora da música, da criação musical, claro que não to falando de dilla, que é outro papo, que enxerga em ritmos o que eu procuro enxergar com melodia, e além disso enxerga melodia tb. o lance é que o hedonismo sonoro da linha preferida é o hedonismo estritamente criativo. o hedonismo da pista é outro, é outro tipo, é o da religião-primal e do homem das cavernas (música = sexo), quem é dessa seara fatalmente não enxerga música da maneira que os racionalistas js bach, brian wilson e mesmo dilla lutaram para ela ser enxergada. veja que mesmo na pegada beatles, o animal collective conquistou o brasil faixa hipster quando fez um disco de dance music.
Diego: e q falta no brasil, e aqui vamos falar da meia-dúzia de gente entre rio-sp, pra ter ouvidos mais atentos. ou menos burros. ou menos emburrecidos? pq vc fala muito de brasil, e de lula, já falou da “música do lula”. num exercício bobinho de hipótese, vc acha que seria diferente se o boom da internet tivesse ocorrido entre 94 e 2002?
eu: não sei, sinceramente. a música vai melhorando de um tempo pra outro, sob condição de pessoas que arriscam, e fazem algo além, serem impopulares. can, hatfield and the north, skip spence, judee sill, som imaginário. algum fluxo no universo faz com que elas sejam na verdade colonizadoras, sem muita atenção da boiada quando estão ativos. sempre foi assim. a questão é que no mundo A, hoje, acho que alguns colonizadores, pelo modelo de negócio sóbrio para música underground/comercial que plantaram no primeiro mundo, no mundo ocidental, estão sendo reconhecidos e considerados in time. o brasil tá fora disso, porque é um país que tem basicamente três problemas: não gosta de ser ocidental (tem culpa na idéia de ser), é pobre de grana e é pobre de espírito, é onde a publicidade deu mais certo (ganhou os espíritos inapelavelmente).
pouco a ver com lula, que é uma consequência, ele é causa de pouca coisa, é sintoma de muitas, embora ele seja causa sim da potencialização de uma espiral nefasta de associação entre “nobres princípios” e “origem humilde/ excluída”. essa idéia de que grafite é a nova arte, por. ex.. o pondé fala muito de fascismo do politicamente correto na folha, o grafite é a arte formal do governo do relativismo politicamente correto no mundo, da eleição do obama e, mais ainda, do lula. isso tem influenciado na música, vejo toda uma safra enrome de discos-grafite, de intenções-grafite. mas não é bem culpa dele. é culpa da vila madalena, que eu adoro como espaço físico-gastronômico.
Diego: mas joguei mal a pergunta. ali de internet, e se o boom da internet em época não-lula (psdb) seria diferente. pq tenho uma leitura de q a internet é usada no brasil como televisão e rádio. é o mesmo padrão de consumo. talvez por isso, o q acontece no mundo A (apreciação do colonizador in time) não aconteça aqui.
eu: pode ser, mas isso tem mais a ver com o pattern publicitário. a publicidade, eu não falo de anúncio de campanha, falo de modo de vida, de lógica social (apontamento de produto, venda em forma de evento/ comportamento), está para o brasil como o futebol tb está. é uma questão brasileira moderna porém estruturante esse triunfo do modo de viver/pensar/construir (com base no que, afinal, “significa”, “comunica”) publicitário. é muito brasileiro porque o brasil não tem uma cultura. é um país filho de português cafajeste e mãe morta no parto. a publicidade é a mãe adotiva da cultura brasileira. o lucio ribeiro, que é um ótimo negociante, construiu um negócio para ele, um modelo de comércio próprio, com base em conhecimento musical relativíssimo e capacidade de se comunicar com todo um “rebanho” nada restrita, um modelo que exprime exatamente como o modo publicitário age na cultura brasileira, de classe média sobretudo, que ainda define sim o que é o brasil. a ilustrada do mesmo modo, refletindo a tendência de iconização dos produtos culturais “de arte”, tipo almodovar, woody allen, que até gosto. tom waits, dylan, céu, grafite, etc. a publicidade jornalística de esquerda. e esse rebanho do lucio, tá bem enganado quem acha o contrário, não é de teens e outras coisas inofensivas, é de diretores de criação das agências, é de gente de TV, é de gente que, de fato, desenha culturalmente o país.
trabalhei numa agência de assessoria em que o chefe descolado frequentava pubs com banda cover, ouvia snow patrol e broken social scene. adivinha quem ele achava massa no “jornalismo musical”?
Diego: a publicidade, mais q incentivar, legitimiza o consumo. mas, olha eu bancando o hagiógrafo, vejo na interwebs um espaço que poderia enfraquecer esse padrão de consumo. mas não acontece. e não tô falando do capiau do sertão. tô falando de nego q lê a pitchfork. quer dizer, lê o caraleo, passa o olho. é um padrão de consumo típico do broadcast, e pior, da época pré-controle remoto.
eu: o cara que passa o olho é o hipster, é a “fashion victim”. mas o hipster lá fora tem mais chance de entender a música, de ter uma relação mais construtiva com ela, porque é filho de gente que matou indio pra construir, não de quem matou indio pra roubar o que tinha ali. matar indio, mas no modelo americano, deu no final em animal collective. e em dilla, e em jazz, e em beach boys. deu na construção de uma cultura de fato. a publicidade é amiga do hipsterismo, mas aqui o efeito é devastador, ou melhor, esterelizante, lá acaba sendo criada uma funcionalidade equilibrada com evolução real. o brasil foi bem em musica nos anos 60/70, basicamente por causa de um acidente intelectual pré-publicitário.
Diego: qual foi o acidente?
eu: o fato das lideranças intuirem basicamente tudo isso que estou falando. serem, em um primeiro momento, reais aventureiros, muito mais da música do que da política (ensinam tudo no filtro da política, é errôneo): caetano veloso, arnaldo e milton nascimento, fora os que estavam envolta, que sabiam se relacionar com um sistema de lucros que era ainda insipiente, praticando lá o que hoje seriam tentativas de suicidio, por não acharem dinheiro tão interessante quanto a aventura e por não acharem graça em promoção tanto quanto achavam em relação à autoria, inclusive a de uma (própria) imagem. ganharam fãs que ajudavam tb, porque a sociedade brasileira de uma forma geral tava bem melhor, e, graças à repressão, mais aberta à noção de aventura, a “coisas difíceis”, do que a de hoje está. detesto essa geração que se criou nos anos 80 com campanhas inteligentes do olivetto, que elegeu coisas como chaves e roberto carlos a culto e que critica o que é “elaborado demais”, “sofisticado”, “hermético”.
a publicidade zuava menos o molho tb, porque era embrionária. quando o modo de vida publicitário engrenou no brasil (redemocratização), aí ficou feio. porque o país começou a se articular pra pertencer ao “mundo real” do consumo, mas sem uma cultura sólida embaixo nem condições sociais (governo mecenas) que garantiria que a arte sobrevivesse. digo sem pestanejar que não houve um, um sequer, disco brasileiro nos anos 80. nem nos 90.
Diego: é, vc não gosta de fellini, né? te perdôo
eu: outra parte do acidente: quem estava na presidência das majors eram pessoas que viam naqueles aventureiros potenciais de grana, mas compartilhavam com eles visões sobre arte. um paísão estatizado, de militares, não precisava da iniciativa privada dizendo e ditando (de forma errada, ingnorante, inculta) que música poderia dar uma grana preta, ser pro povão, etc. hoje, o que rola um pouco é uma miopia de volta ao setentismo desse clima. eu acho o disco do lucas santtana do cacete. mas é um absurdo que não se fale dele com a ressalva de que é muito cagado fazer um disco fingindo ser daquele contexto, é muito casa-de-cera, e não observar isso é de um acriticismo imperdoável. entendeu?
Diego: pensando em música (que pra mim é indicativo de saúde) e nesse panorama que, me parece, chega até a te atormentar (fico de cara como vc soa amargo às vezes, e desesperançado), vc acha q a internet q funciona pro hipster gringo pode criar ocidente e humanismo no brasil?
eu: eu acho que a internet brasiliera sempre vai refletir o que o brasil de fato é, assim como o futebol tb. é um pais dominado por canalhas e burros. quem não tem acesso à arte (os pobres em geral, e os caras da corporação, que riem com qualquer piadinha de sexo), estraga, quem tem acesso também estraga, porque odeia a ocidentalidade ao mesmo tempo em que traduz o pior dela. não sou desesperançado, porque nunca coloquei esperanças aqui. mal falo em português sobre a minha musica, embora cante em português. o que no brasil teve de elevado, foi acidental. quem sabe esteja mais um acidente vindo aí, mas acho difícil. por isso estou sozinho, e realista. falando de saúde, se tem uma coisa que a música me ajuda a ter é sanidade.