cinema de exceção

Postado em Uncategorized em Dezembro 18, 2009 por Claudio

aviso que ao contrário de minha postura permissiva e prostituta em música (só escuto mp3, e acho graça quando alguém vem com palhaçada de me falar de flac e essas porra ae), não vejo filme se não for no cinema. não tenho um dvd e não terei.

baixar filme? hahaha.

colocado isso, eis os 10 melhores filmes de 2010:

1 – amantes do james gray

2 – a religiosa portuguesa do eugéne green

3 - harry potter e o príncipe mestiço do david yates

4 - inimigos públicos do michael mann

5 – distrito 9 de alguém

6 - bastardos inglórios do quentin tarantino

7 - 500 days of summer de agluém

8 - tinha que ser você de alguém

9 - a orfã do jaume serra

10 – a incrível história do bebê que nasceu velhinho do david fincher

guerra limpa

Postado em Uncategorized em Dezembro 14, 2009 por Claudio

o papel que o coke machine glow resolveu adotar, a saber o de underdog pra iniciados que tenta desmoralizar a pitchfork no tabuleiro certo, o do criticismo musical pop…  sem se dar à violação de defenestrar aquilo que se encaixa em seu próprio sistema e que foi aprovado pela “concorrente” – mas dando, em contraposição, cacetada pesada em tudo aquilo em que o cmg não acredita, toda aquela cartilhinha musical que caracterizou maximamente a pitchfork em 2009 e que caracteriza a política pitchfork de invenção de um novo gosto indie americano médio para que ela mesma se prove dona dos gostos mundiais… esse trabalho/ papel não é só louvável, está sendo feito de forma cada vez mais precisa. ps – gosto de neon indian.

1000 anos em 3

Postado em Uncategorized em Dezembro 14, 2009 por Claudio

saudosismo é uma praga de caráter que por enquanto não me teleguia nem um pouquinho em termos de música, e obviamente tenho problemas com o meu ocasional (bem ocasional) conflito de não achar os anos 2000 foram praticamente  insuperáveis.

mas ontem eu tava vendo aquele doc de uma hora sobre os beatles que passa no multishow, cortado e contado engenhosamente com inserts vocais de vazamentos de estúdio e delcarações dos próprios 5 integrantes do grupo.

me dá na boca a amarga e doce ao mesmo sensação de que realmente não há melhor música do que aquela, infelizmente, e que todo o resto que foi feito depois é prática milimétrica de evolução (ou seja, o lance de milésimo por milésimo no atletismo) — não negando aqui obviamente qualquer evolução, mas não conseguindo negar também a consciência de que a proporção e o tamanho dos saltos dados posteriormente em comparação ao que foram revolver e sgt. peppers (e até paralelamente os discos do brian wilson) são, digamos, laboratoriais. esperados até, de certa maneira. tô sendo tapado demais? acho, tipo, dungen insuperável, mas é fácil ser o dungen, ou mesmo o q-tip (um gênio), perto de ser os beatles, realmente.

acho muito bom o começo desse documentário especificamente, porque o paul jovem admite coisas como o fato da banda ter chegado meio de gaiata no business, com uma musiquinha chiclete boba chamada love me do, ressaltando “que agora teriam que ver se conseguiam treinar a habilidade de serem compositores, para aproveitar a oportunidade que eles estavam tendo momentaneamente naquela indústria”. ou então george dizendo que “pelo menos até 66, pelo contrato assinado, parece que eles poderiam estar dentro, depois disso, poderiam ser rebaixados”. george martin: “não sabia se eles eram talentosos nos primeiros singles”.

não deixa de ser um bálsamo para qualquer bandinha nova (é particularmente um exemplo de humildade para alguns de mim) ver que o paul mccartney não confiava muito em si. mal sabia ele que em 1963 nem existia música pop, e que ele inventaria o conceito de excelência criativa e os próprios códigos que a formaram.

os beatles são produto profundo de uma “sorte” profunda que combinou talento, de fato, boas companhias, mas acima de tudo ter tudo isso na hora certa. o que resta ser feito depois senão desdobrar eternamente (para léguas um pouco menos ou um pouco mais distantes) o que os beatles fizeram em termos de pop(ular, humana, o que for), falando sério? tá, bitches brew, rotters club, mas, porra.

o niilismo amplificado com o velvet underground e com o can, e o king crimson legando para a formação clássica do rock um espírito orquestral, sinfônico e de modernidade brutal. sem falar em aphex twin, fela kuti. todas essas jardas avançadas, em relação ao que já existia antes, são passos de taturana (vários mas em pequena escala) perto do que os beatles fizeram de 63 pra 66.

acho que não é demérito ser aphex twin né, mas queria dividir essa assombrosa sensação de frustração por ser um entusiasmado cidadão contemporâneo, moderno de fato, perdido num caldeirão interminével de gostos, junções, recriações, revisitas e reapropriações que, pasmém, a tremenda maioria não tem nem sequer a vulgar dignidade de admitir ser talvez não tão relevante assim.

em que pese que no fim de semana ao ouvir aquela obra-prima de produção pop que é american boy, quando entra kanye, até eu me molho. me molhar com essa canção talvez seja indício de que eu deveria apagar logo esse post, mas não vou.

apreciações de final de ano: weidorje

Postado em Uncategorized em Dezembro 14, 2009 por Claudio

que ano incrível foi aquele 1978, que viu o prog rock se tornando outra coisa no lado mainstream com o gabriel reinventando com o eno a significação de pop, com o milton nascimento fazendo seu white album obra-prima (talvez o último disco não-canalha ou não-burro de esquerda brasileiro). com muitas coisas trafegando irrastreáveis pela atomosfera. ufos, objetos não-identificados mesmo, de todas as proporções e intenções artísticas europa, américa do sul (sobretudo ela!) afora.

o national health foi o desdobramento natural do hatfield and the north, e lançou seu masterpiece of queues and cures, um disco que tenho certeza absoluta de estar entre as maiores realizações humanas. o m.i.a fez seu cornonstipicum, e o weidorje cumpriu seu único disco.

weidorje se pronuncia vaidorj, e é um termo que provém do dialeto que o magma inventou para si mesmo no mesmo kit de sua música e do nome de estilo para acomodá-la, a zeuhl music. não preciso dizer que não há nada como o magma em termos de megalomania e convicção artística.

engraçado sobre o weidorje é que se trata do projeto de duas ovelhas desgarradas do coletivo-orquestra do christian vander, bernard paganotti e patrick gauthier, mas que mesmo saindo do magma não abandonaram nem o zeuhl nem o dialeto.

o disco de estréia é único, absolutamente uma procissão melódica e rítmica de exaltação à música, proporcionando uma legítima sensação french beat (zeuhl = french beat) no todo. um passo ao lado – rumo à concisão – do magma, não na mesma posição. as músicas começam, se desenvolvem, mudam, os “personagens” trocam de posição dentro da narrativa, sempre em torno de uma idéia musical rochedo que é minuciosamente “estudada”, esmiuçada e violentada em suas francas possibilidades.

é o tipo de coisa que não se espera de banda qualquer hoje, visto que há uma preocupação bastante barroca e “artesanal” ao operar tanta lierdade. é música essencialista mas está distante do folk ou da “rusticidade”, é improvisada mas está longe do jazz, é algo realmente novo para aquele 78, mas que não perdeu seu frescor, creio eu, porque ninguém conhece weidorje ainda.

dave stewart e john greaves, do hatfield e depois do national health, alteraram a forma de fazer música, com pianos e baixos selvagens e distorcidos, criaram um gênero chamado canterbury que ninguém consegue recriar ou a ele algo adicionar. greaves é meu baixista preferido. mas o trabalho do paganotti nesse disco do weidorje marca talvez a participação mais doentia e criativa de um baixo em um disco. é um disco de baixo sem ser para baixistas ou merda pedagógica, é um disco de música em que o baixo tem a mesma importância e expressividade de um piano em um disco do elton john.

d.a.n.c.e

Postado em Uncategorized em Dezembro 9, 2009 por Claudio

como é de se esperar, eu não ouço of montreal em casa.

e não sou o maior fã de pós-punk que existiu, mas entendo suficientemente a coisa pra falar assim:

porque tanta animação (sobretudo midiática) com o lance de rock’n roll que dança sendo que esse lance foi categoricamente fechado, finalizado, em termos MUSICAIS, com os dois últimos discos da banda (de fato camaleã) que antes tentava imitar os zombies e o pink floyd 60’s (ouvia em casa nessa época)? discos que escutei, claro, pílula à pílula nos últimos 3 anos pela nite. acho que foi o que eu precisei pra pegar os dois inteiros, em tempo recorde de apreciação.

respeito coisas como passion pit, e também entendo o james murphy como semi-deus – mas ele é outro assunto, assim como o passion pit é banda de uma estatura eclusivamente episódica e comercial, sem demérito aqui, mas visto que não dá pra ser maior que isso não sendo laboratorial, anti-populista embora pró-pop, “crítico” na feitura da música, realmente apaixonado por idéias, como o of montreal é. sei lá, pensando bem talvez esteja enganado sobre o passion pit, mas o of montreal é uma parada de inspirar lágrimas (as da perfeição, não as da “população”), sempre foi, e tá difícil para alguém no mesmo estilo dizer alguma coisa. assim como depois das últimas canções perfeitas de grizzly bear (sim, eles tiveram, algumas, neste ano) e beach house (com efeito a parceria entre os dois) tá difícil dizer alguma coisa em termos de música pop clássica.

veackadreamest

Postado em Uncategorized em Dezembro 9, 2009 por Claudio

engano meu ou a música atual do grizzly bear, depois da fase milton 70-73 no destemido yellow house, é uma variação incansável em torno de uma faixa de 70 do donny hathaway, chamada a dream (que já tinha moldado o canto do antony)?

copa

Postado em Uncategorized em Dezembro 8, 2009 por Claudio

GRUPOS:

A

áfrica do sul

méxico

uruguai

frança

ads VS méxico – 2 a 1

uruguai VS frança – 1 a 1

ads VS uruguai – 0 a 0

méxico VS frança – 1 a 2

ads VS frança – 1 a 3

méxico VS uruguai – 1 a 1

B

argentina

nigéria

coréia do sul

grécia

argentina VS nigéria – 3 a 2

coréia do sul VS grécia – 1 a 2

argentina VS coréia do sul – 3 a 1

nigéria VS grécia – 0 a 1

argentina VS grécia – 2 a 1

nigéria VS coréia do sul – 3 a 3

C

inglaterra

usa

argélia

eslovênia

inglaterra VS usa – 2 a 2

argélia VS eslovênia – 4 a 1

inglaterra VS argélia – 2 a 2

usa VS eslovênia – 3 a 1

inglaterra VS eslovênia – 1 a 0

usa VS argélia – 0 a 2

D

alemanha

austrália

sérvia

gana

alemanha VS austrália – 1 a 1

sérvia VS gana – 1 a 2

alemanha VS sérvia – 1 a 1

austrália VS gana – 0 a 1

alemanha VS gana – 2 a 2

austrália VS sérvia – 2 a 2

E

holanda

dinamarca

japão

camarões

holanda VS dinamarca – 1 a 3

japão VS camarões – 1 a 1

holanda VS japão – 3 a 0

dinamarca VS camarões – 1 a 2

holanda VS camarões – 3 a 2

dinamarca VS japão – 2 a 1

F

itália

paraguai

nova zelândia

eslováquia

itália VS paraguai – 1 a 0

nova zelândia VS eslováquia – 1 a 3

itália VS nova zelândia – 2 a 0

paraguai VS eslováquia – 0 a 0

itália VS eslováquia – 3 a 1

paraguai VS nova zelândia – 4 a 1

G

brasil

coréia do norte

costa do marfim

portugal

brasil VS coréia do norte – 8 a 0

costa do marfim VS portugal – 1 a 0

brasil VS costa do marfim – 3 a 0

coréia do norte VS paraguai – 0 a 3

brasil VS portugal – 2 a 1

coréia do norte VS costa do marfim – 1 a 3

H

espanha

suíça

honduras

chile

espanha VS suíça – 2 a 2

honduras VS chile – 1 a 5

espanha VS honduras – 6 a 0

suíça VS chile – 1 a 1

espanha VS chile – 1 a 3

suíça VS honduras – 1 a 1

CLASSIFICAÇÃO:

A

frança: 7

áfrica do sul: 4

uruguai: 3

méxico: 1

B

argentina 9

grécia 6

nigéria 1

coréia do sul 1

C

argélia 7

inglaterra 5

usa 4

eslovênia 0

D

gana 7

alemanha 3

sérvia 2

austrália 2

E

holanda 6 (empatados em saldo, vitórias, holanda com 7 gols fica em primeiro)

dinamarca 6 (6 gols pró)

camarões 4

japão 1

F

itália 9

paraguai 4 (classifica-se pelo saldo de gols: 2)

eslováquia 4 (saldo de gols: 0)

nova zelândia 0

G

brasil 9

costa do marfim 6

portugal 3

coréia do norte 0

H

chile 7

espanha 4

suíça 3

honduras 1

OITAVAS DE FINAL:

argentina VS áfrica do sul 3 a 1

gana VS inglaterra 1 a 1 (2 a 2 na prorrogação – gana vence nos penaltys)

itália VS dinamarca 0 a 0 (itália 1 a 0 na prorrogação)

chile VS costa do marfim 2 a 2 (costa do marfim 4 a 2 na prorrogação)

frança VS grécia 1 a 1 (grécia 2 a 1 na prorrogação)

argélia VS alemanha 3 a 2

holanda VS paraguai 2 a 1

brasil VS espanha 4 a 3

QUARTAS DE FINAL:

argentina VS gana 2 a 2 (gana 3 a 2 na prorrogação)

itália VS costa do marfim 2 a 0

grécia VS argélia 1 a 1 (1 a 1 na prorrogação – grécia vence nos penaltys)

holanda VS brasil 1 a 3

SEMI-FINAL:

gana VS itália 1 a 2

grécia VS brasil 1 a 1 (brasil 3 a 1 na prorrogação)

TERCEIRO LUGAR:

gana VS grécia 3 a 1

FINAL:

itália VS brasil 0 a 3

CAMPEÃO: brasil

vice: itália

terceiro lugar: gana

lobão

Postado em Uncategorized em Dezembro 7, 2009 por Claudio

o grizzly bear nos anos 70 era brasileiro, chamava milton nascimento. 79 foi o último ano que o brasil produziu alguma coisa de vanguarda ocidental consagrada: como o grizzly bear, por exemplo, vem produzindo.

dá pra escrever um livro sobre sociologia e cultura e marra/ malandragem brasileira que basicamente são os fatores que explicam esse fracasso.

mas às vezes me ocorre que há índces mais simples, mais simplórios até.

milton foi o que foi porque tinha uma linhagem de músicos progressistas em torno dele transformando seu pop de carro de boi influenciado por beatles e cantoras em algo que depois o genesis, e portanto o grizzly bear, mais à frente foram copiar.

primeiro índice possível:

quantos músicos realmente progressistas existem hoje no brasil?

mas aí, inaciamente, eu mesmo me perguntaria: tá mas quantos miltons existem hoje no brasil? alguém que ao mesmo tempo entende a contemporaneidade e a raiz sem parecer datado, localizado, radiografista social. e um gênio, simplesmente um gênio, na hora certa, lugar certo, etc. um inventor único. é pedir muito.

aí parto pra outro índice. o country brasileiro, o que o brasil tem de seu e original, não é exatamente a música de carro de boi mineira. é o samba (e variantes).

quantos músicos progressistas há hoje enveredando pelo samba?

quando o samba um dia exigiu, ou sugeriu, algum tipo de progressismo? nas misturas paulistanas que foram implantadas, infundidas? não.

quando o samba exigiu algo que não fosse a simpatia, a cortesia e a letargia do morro (fora jorge ben, chico de 71 a 77)?

e melhor ainda, e voltando ao ponto inicial:

se a música pop notadamente americana e de vanguarda (gang gang dance, exemplo, animal collective, outro, sonic youth, mais um, tv on the radio, o mais próximo do momento, do sentido contemporâneo talvez) deixa um rastro flagrante de contato com aaron copland em meio às melodias de negros dos anos 50 (tv) e ao espírito country nos desenhos líricos (animal collective), quantos compositores brasileiros modernos, e fora da música academicista-lixo, se ligam em villa-lobos?

é, uma especulação.

inacreditável esse final

Postado em Uncategorized em Dezembro 6, 2009 por Claudio

o que fez o palmeiras ganhar esse campeonado impossível, fora:

1- o flamengo ter uma zaga assustada e vacilante, que deixou o grêmio tocar a bola na frente do bruno no segundo gol.

2- o mário sérgio ser um técnico travadão que arma os times para jogar bola mas não para chegar em gol.

3- o marcelinho carioca retribuindo historicamente tudo o que ganhou contra o plameiras em duas jogadas geniais no beira-rio.

4- a soberba mengão em geral.

5- xavier acertando todas, inclusive aquelas que ele sempre colocava o diego em impedimento.

FOI:

os tapas na hora de pagar a continha de luz.

CARALHO.

love, às vezes títulos se fazem sem love. 

não dá pra acreditar ainda que um time de bairro ganhou de toda a imbecilidade nacional oficial, a saber: corinthians, flamengo, lula, pt, esquerda, neo-corporativismo spfc, povão.

escrotice condominial

Postado em Uncategorized em Dezembro 6, 2009 por Claudio

não isso sendo exatamente incomum, o inácio araújo escreveu, como faz umas 6 vezes ao ano, um artigo realmente genial e visionário em seu blog cinema de boca em boca, que você pode achar pelo google, sobre a noraephronização do circuito de cinema em são paulo.

para quem não sabe, nora ephron é a cineasta que fez “julie & julia”, trata-se de uma feminista caretóide que, segundo e acertadamente o inácio, sintomatiza, com filmes vazios e aliviantes, e mais ainda, eventualmente sobre o próprio vazio aliviante da vida moderna, a forma como o cinema comercial se torna cada vez mais uma parada sem-graça. pra namoradinhos que compram pipoca poderem experimentar algo que não coloque o namoro em cheque, algo com nenhum conflito mas ainda assim um “produto bom” (segundo a normativa publicitária), que “comunica bem” portanto, que promete fazer permanecer aquela sensação absolutamente popular na contemporaneidade de letargia segura que a boa compra, aquela que não te traz dúvidas, vontade de pedir o dinheiro de volta ou inspiração modificante-transformadora, provoca. ephron seria o fator simbólico e de extremização dessa estética “perfect pop zumbi”, que é perfeita não pelo domínio da linguagem, mas pelos atalhos da facilidade, no cinema contemporâneo.

essa é uma tradução para quem não quiser procurar o artigo, mas todos deveriam.

por minha conta, eu pensei muito e acho que a noraephronização só começa no circuito de cinema, que pelo amor, é um lixo em são paulo, até nas opções “alternativas” que propõe, ou seja o cinema do humanismo defasado e pueril que o leon cakoff importou para o brasil.

só começa porque ela tá em todo lugar. falando com um amigo meu sobre os fluxos e refluxos de público nos clubes under/ indies de são paulo, chegamos à conclusão de que a situação anda menos que morna porque as pessoas estão redescobrindo, ou descobrindo pela primeira vez, o prazer seguro e confraternizatório/ sectário das mesas delimitadas dos bares: seja no centro, na augusta ou mesmo na vila madalena e na zona oeste.

nas baladas mesmo, as pessoas vão cada vez mais em grupos maiores de amigos, protegidas pela cortina humana que se forma numa roda qualquer. quando a cortina é abandonada provisoriamente por duas de suas componentes, por exemplo, para ir dar uma olhadinha na pista, essas componentes vão de mãozinhas dadas, mesmo sem serem sapatas, porque é do tom da proteção.

cada vez mais reuniãozinhas caseiras, pra gente que respeita o sentimento familiar de amizade meio maçônica, livre de contágios externos. higiene social, não tem outro jeito de ver.

e a música em todos esses eventos? nunca houve um descompasso tão grande entre vontade musical do público (pseudo)antenado em sp -que espera-se mais naturalmente propenso a coisas diferentes - e a evolução da música no mundo. o guab, que é um cara que sempre respeitei por ter um gosto musical excelente acima de tudo (fora que foi baterista do fábio góes, incrível revelação), mas sempre “alfinetei” por dialogar numa boa com os indies bobinhos que vão até o talking heads, até o vampire weekend e fim, por ser político, hoje vejo, em termos de discotecagem (é só ir na neu), como um anti-herói destemido: um cara que, a considerar a contradição entre o que ele toca em 60% do tempo e a exigência pelo normal, pela normalização corporativa dos gostos, pela normalidade (em termos musicais/ estéticos) publicitária, unida à escrotice sectária, condominial (não me comunico com nada ou ninguém que estiver fora do meu grupo e que me contamine), do público geral atual dele, não pode ser visto como alguém dentro da curva. alguém compactuante. e lembro de novo, não tinha, nem perto, essa visão um tempo atrás sobre ele.

tudo isso me faz ter certeza de que o texto visionário do inácio não serve só pro circuito de cinema. a noraephronização é um fenômeno medonho, não pelo que ele representa apenas (assepsia das relações, condominiamento de sentimentos e relações, proteção, proteção da própria mediocridade assumida como modo de vida). ele é medonho porque é tudo isso em  relativamente larga escala, e aumentando.

apreciações de final de ano: oneida

Postado em Uncategorized em Dezembro 5, 2009 por Claudio

se estivesse na lista abaixo, rated o certamente ganharia a alcunha de “disco da provocação”. ou quem sabe “da provação”. não há registro, tô falando sério, nesses últimos anos de tentativa, pelo menos mais bem-sucedida não há, de algo que grunhe, agride, e que ao mesmo tempo pensa, de fato pensa, ilumina tanto, na mesma extensão, que esse disco do oneida.

são singelas 2 horas de música sem parar, a grosso modo sem restrições, em um triplo no qual essas três partes induzem a rotas de desconfortos e reconfortos epifânicos de lado a lado, às vezes de música à música, e mais eventual e extremamente dentro da mesma música. o primeiro disco é um convite ao suicidio e ao abandono do álbum, é o tipo de coisa que todo mundo deveria ter o culhão de fazer, alguém já deveria ter feito antes para desmontar o ouvinte, precisamente no contraste com a segunda parte.

quem chega a ela, adoro isso, vislumbra o lado “b”, tipo dungen, que na verdade é o “a”, seria em termos tradicionais, por mais “palatável”, com mais …. hmmm… “letras” e hardprogness tradicionalista do que o black grungebatidão/ dubcore que define o primeiro lado. quer dizer, definir é forte demais, porque há, como eu disse acima, variações de elementos, pequenos gestos, mesmo nas repetições mais violentas, que não são capazes de inscrever o lado a como essa terapia de choque monstrenga sem concessões e respirações para fora do tubo. o lado c é tudo meio que misturado, mas pouco importa, porque quem conseguiu chegar nele já está com a cabeça devidamente preparada e feita para enfrentar tudo que vier, qualquer coisa que siga, e é essa a mágica desse autêntico disco conceitual, desse disco-cinema, que cria um fluxo de imagens (sons, no caso) que, dentro da própria experiência fruitiva, dentro do próprio momento (aquelas duas horas), dão, ao ouvinte, os contornos e condicionamentos dos quais se precisa. o “formam” dentro de balizas sensoriais próprias rumo ao “fim” de uma obra realmente planejada, trabalhada, que não se trata de mera sequência de coisas interessantes. ainda que “música livre” seja em última instância a melhor generalização pra falar de rated o. discos, dentro deles mesmos, formam ouvintes, talvez seja esse o final de tudo em termos de qualquer tentativa de falar de música e arte ao mesmo tempo.

nem sei se é uma compilação ou coisa parecida na real. mas foda-se, pra mim é um dos discos desbravadores da música em 2009 de qualquer jeito. um dos melhores.

21 discos dos 00s que fizeram toda a diferença

Postado em Uncategorized em Dezembro 4, 2009 por Claudio

21 discos que, bem, fuderam tudo pra mim

dungen – 4 (o disco do rigor hedonista, o disco de uma vida)
spoon – ga ga ga ga ga (o disco que retorna e encerra mais uma vez o rock como expressão da fortuna ocidental)
blonde redhead – misery is butterfly (o disco da reviravolta)
tv on the radio – return to the cookie mountain (o disco do pessimismo vital)
grizzly bear – yellow house (o disco da modernidade)
high llamas – beet, malze, corn (o disco de bach na pós-ocidentalidade)
wilco – a ghost is born (o disco – sempre – em progresso)
grandaddy – just like the fambly cat (o disco de um mundo extinto)
elliott smith – figure 8 (o disco da religião)
wolf parade – apologies to the queen mary (o disco parabólico)

+

j dilla – donuts (o disco da linguagem)
prefuse 73 – surrounded by silence (o disco da dilatação)
animal collective – strawberry jam (o disco de vislumbrar as novas altitudes e latitudes, e atitudes tb vai)
dirty projectors – rise above (o disco dos encontros)
pat metheny – the way up (o disco que os fãs dummies do jim o’rourke não ouviram)
sufjan stevens – greetings from michigan (o disco gênese)
arcade fire – funeral (o disco dos amores)
super furry animals – phantom power (o disco dos bêbados em estado de graça)
shapes and sizes – split lips winning hips a shiner (o disco da criatividade CDF)
ned collette + wirewalker – over the stones under the stars (o disco da experiência)
francine – airshow (o disco secreto)

apreciações de final de ano: ned collette + wirewalker

Postado em Uncategorized em Dezembro 4, 2009 por Claudio

o que impressiona no disco do ned collette é que se trata de alguém com a minha idade, mas ele leva uma carranca e carrega uma austeridade que me dão a idéia de que seja mesmo meu avô. come clean é o tipo de material que faria o national invejar, pela síntese excludente de pop direto, reto, adulto e cintilantemente orquestral (cortesia do wirewalker), porém seco, sempre seco em DNA, que esse australiano consegue, não só nessa canção. e o que faz toda a diferença no álbum, como obra fechada, é o fato de todas as faixas se comunicarem, mas as 10 exigirem, em conjunto, diferentes alcances de sensibilidade, levando a choque térmico a todo momento. e com uma vontade de brilhantismo, de não-futilidade milimétrica, mas não aloprada, em cada arranjo que, em sua precisão, não é pra qualquer moleque mesmo — só pra velhos quem sabe

não acredito que melhor música madura tenha sido feita esse ano, e é uma aula/ painel de ocidente refinado em anos e anos, transformado em um sentimento realmente contemporâneo (austero, desgastado, mas não desolado, já que a possibilidade de invenção existe) nesse circuito de 10 canções.

afinal, tudo isso existe para

Postado em Uncategorized em Novembro 30, 2009 por Claudio

que eu exerça minha contradição: ser da cultura pop.

minhas listas do ano:

6 discos véios/ descobertas inestimáveis em 2009:

judee sill – judee sill (1971)
national health – of queues and cures (1978)
weidorje – weidorje (1978)
m.i.a – conrnonstipicum (1978)
fábio góes – sol no escuro (2006)
amnesty – free your mind (1973)

*naturalmente, com o peso dessas três OPs, 78 superou anos concorrentes como 67, 72 e 2006 e se tornou o ano da música ocidental.

11 discos brasileiros muito bons/ muito dignos em 2009:

pullovers – tudo o que eu sempre sonhei
zeca viana – seres invisíveis
babe, terror – weekend
tiro williams – tiro williams
pública – como num filme sem um fim
romulo fróes – no chão/ sem o chão
lucas santtana -sem nostalgia
buon giorno luamada – buon giorno luamada
caio marques – cidade vazia
acessórios essenciais – vestígios da megafauna
península fernandes – até domingo

11 discos que não gostei em 2009:

grizzly bear – veckatimest
yo la tengo – popular songs
prefuse 73 – everything she touched turned amplexian
phoenix – wolfgang amadeus phoenix
woods – songs of shame
jim o’rourke – the visitor
dinossaur jr – farm
flaming lips – embryonic
sondre lerche – heartbeat radio
ducktails – ducktails
volano choir – unmap

*menção honrosa a uma boa parte da produção brasileira, não exatamente ou somente em discos,  aparições e conceituações gerais (inclua-se não apenas músicos), que ratificaram a tendência nacional ao revisionismo de esquerda marrento, ao nacionalismo vila-madalena, ao artificialismo, à tradição fonográfica e a outras caretices estatais/ publicitárias.

11 discos que não estão entre os 11 preferidos nem entre os desbravadores do ano, mas que não serão esquecidos:

clark – totems flare
white denim – fits
sholi – sholi
swan lake – enemy mine
circulatory system – signal morning
akron/ family – set’ em wild, set’ em free
califone – all my friends are funeral singers
charles spearin – the happiness project
wave machines – wave if you’re really there
andrew morgan – please kid, remember
drummer – feel good together

11 discos que olharam pra frente em 2009:

animal collective – merriweather post pavilion
mos def – ecstatic
here we go magic – here we go magic
oneida – rated o
dan deacon – bromst
babe, terror – weekend
health – get color
julian lynch – orange you glad
atlas sound – logos
christian naujoks – christian naujoks
twins – doubles

os 11 discos preferidos de 2009:

a sunny day in glasgow – ashes grammar
bat for lashes – two suns
blues control – local flavor
silk flowers – silk flowers
ned collette + wirewalker – over the stones under the stars
marissa nadler – little hells
pullovers – tudo o que eu sempre sonhei
ramona falls – intuit
dirty projectors – bitte orca
bibio – vignetting the compost
so many dynamos – the loud wars

entrevista comigo

Postado em Uncategorized em Novembro 30, 2009 por Claudio

então, o diego franco me entrevistou no gtalk outro dia. vou reproduzir a matéria aqui. formalidades como o abre e as fotos tão na versão integral. procurem nas bancas e na internet.

Diego: entre 0 e 0,1, qual a chance de vc ir ver nuda no berlin?

eu: no berlin, se fosse uma sexta, não-dia de festa, seria de quase 40 %. mas eu confesso pra vc que não tenho paciência alguma pra quem vai ver geralmente, pro recifismo de paulistano e de recifenses paulistanos. é uma galera bem estatal. daí abaixa muito.

Diego: hm. já viu nuda ao vivo?

vale.

eu: tô ligado. mas to cansado de dizer, pra mim show é que nem circo. é ilusionismo, se vc ama uma banda, vale eventualmente, se vc quer se entregar, vale muito, mas não tem nada a ver com música. no caso não me conectaria com a banda sabendo do entorno, e jah conhecendo a banda etc, respeitando suficientemente ela. esse papo de que pra conhecer uma banda precisa ver ao vivo é de quem não entende de musica. eventualmente uma banda é OUTRA banda no show, aí é maneiro tb.

Diego: vc costuma ouvir a música erudita de entre 40/60? traz algo deles pra agora? sou bem begginer nessa seara, mas identifico entre eles e vc uma imaginação em comum.

eu: eu ouvi já, mas o que faço tem a ver mais com o hip hop, que é a coisa de uma linha que não tava prevista pelos ouvidos, que é legal, e da perpetuação circular dessa linha porque ela leva a algum lugar – via repetição. o “problema” é que no hip hop moderno em si, ela é usada tradicionalmente como facilitador, como uma base pruma rima, geralmente, eu quero o mínimo dela e quero usar o minimo dela para perpetuar um sentido. isso em outras palavras se chama hedonismo musical, é o que o animal collective faz tb (eles na verdade abriram essa porteira contemporaneamente), mas com mais instrumentos e com uma postura, hoje, de fato mais pop, no sentido beatleniano mesmo. eu sou barroco por outro lado tb, e por isso eu tiro essas linhas básicas de raciocínios barrocos. existe certamente o meu hedonismo musical e música hedonista. são coisas diferentes. hoje o brasil se liga mais em música hedonista. ela não é necessariamente ruim, bem pelo contrário eventualmente (depende da alma criativa por trás), e é melhor do que rock universitário.

Diego: bonito isso do hip hop. e por isso q o clipe na pista de skate (epicentro) ficou mestre, mas teu “hip hop”, menos que rima, abdica mesmo é de ritmo. alguns ouvidos se ofendem com isso, e eu diria q é justamente os mais hedonistas.

eu: é, porque minha leitura de hip hop é hedonistica no sentido de achar a “linha perfeita”. batida é pra dançar, e esse hedonismo é fora da música, da criação musical, claro que não to falando de dilla, que é outro papo, que enxerga em ritmos o que eu procuro enxergar com melodia, e além disso enxerga melodia tb. o lance é que o hedonismo sonoro da linha preferida é o hedonismo estritamente criativo. o hedonismo da pista é outro, é outro tipo, é o da religião-primal e do homem das cavernas (música = sexo), quem é dessa seara fatalmente não enxerga música da maneira que os racionalistas js bach, brian wilson e mesmo dilla lutaram para ela ser enxergada. veja que mesmo na pegada beatles, o animal collective conquistou o brasil faixa hipster quando fez um disco de dance music.

Diego: e q falta no brasil, e aqui vamos falar da meia-dúzia de gente entre rio-sp, pra ter ouvidos mais atentos. ou menos burros. ou menos emburrecidos? pq vc fala muito de brasil, e de lula, já falou da “música do lula”. num exercício bobinho de hipótese, vc acha que seria diferente se o boom da internet tivesse ocorrido entre 94 e 2002?

eu: não sei, sinceramente. a música vai melhorando de um tempo pra outro, sob condição de pessoas que arriscam, e fazem algo além, serem impopulares. can, hatfield and the north, skip spence, judee sill, som imaginário. algum fluxo no universo faz com que elas sejam na verdade colonizadoras, sem muita atenção da boiada quando estão ativos. sempre foi assim. a questão é que no mundo A, hoje, acho que alguns colonizadores, pelo modelo de negócio sóbrio para música underground/comercial que plantaram no primeiro mundo, no mundo ocidental, estão sendo reconhecidos e considerados in time. o brasil tá fora disso, porque é um país que tem basicamente três problemas: não gosta de ser ocidental (tem culpa na idéia de ser), é pobre de grana e é pobre de espírito, é onde a publicidade deu mais certo (ganhou os espíritos inapelavelmente).

pouco a ver com lula, que é uma consequência, ele é causa de pouca coisa, é sintoma de muitas, embora ele seja causa sim da potencialização de uma espiral nefasta de associação entre “nobres princípios” e “origem humilde/ excluída”. essa idéia de que grafite é a nova arte, por. ex.. o pondé fala muito de fascismo do politicamente correto na folha, o grafite é a arte formal do governo do relativismo politicamente correto no mundo, da eleição do obama e, mais ainda, do lula. isso tem influenciado na música, vejo toda uma safra enrome de discos-grafite, de intenções-grafite. mas não é bem culpa dele. é culpa da vila madalena, que eu adoro como espaço físico-gastronômico.

Diego: mas joguei mal a pergunta. ali de internet, e se o boom da internet em época não-lula (psdb) seria diferente. pq tenho uma leitura de q a internet é usada no brasil como televisão e rádio. é o mesmo padrão de consumo. talvez por isso, o q acontece no mundo A (apreciação do colonizador in time) não aconteça aqui.

eu: pode ser, mas isso tem mais a ver com o pattern publicitário. a publicidade, eu não falo de anúncio de campanha, falo de modo de vida, de lógica social (apontamento de produto, venda em forma de evento/ comportamento), está para o brasil como o futebol tb está. é uma questão brasileira moderna porém estruturante esse triunfo do modo de viver/pensar/construir (com base no que, afinal, “significa”, “comunica”) publicitário. é muito brasileiro porque o brasil não tem uma cultura. é um país filho de português cafajeste e mãe morta no parto. a publicidade é a mãe adotiva da cultura brasileira. o lucio ribeiro, que é um ótimo negociante, construiu um negócio para ele, um modelo de comércio próprio, com base em conhecimento musical relativíssimo e capacidade de se comunicar com todo um “rebanho” nada restrita, um modelo que exprime exatamente como o modo publicitário age na cultura brasileira, de classe média sobretudo, que ainda define sim o que é o brasil. a ilustrada do mesmo modo, refletindo a tendência de iconização dos produtos culturais “de arte”, tipo almodovar, woody allen, que até gosto. tom waits, dylan, céu, grafite, etc. a publicidade jornalística de esquerda. e esse rebanho do lucio, tá bem enganado quem acha o contrário, não é de teens e outras coisas inofensivas, é de diretores de criação das agências, é de gente de TV, é de gente que, de fato, desenha culturalmente o país.

trabalhei numa agência de assessoria em que o chefe descolado frequentava pubs com banda cover, ouvia snow patrol e broken social scene. adivinha quem ele achava massa no “jornalismo musical”?

Diego: a publicidade, mais q incentivar, legitimiza o consumo. mas, olha eu bancando o hagiógrafo, vejo na interwebs um espaço que poderia enfraquecer esse padrão de consumo. mas não acontece. e não tô falando do capiau do sertão. tô falando de nego q lê a pitchfork. quer dizer, lê o caraleo, passa o olho. é um padrão de consumo típico do broadcast, e pior, da época pré-controle remoto.

eu: o cara que passa o olho é o hipster, é a “fashion victim”. mas o hipster lá fora tem mais chance de entender a música, de ter uma relação mais construtiva com ela, porque é filho de gente que matou indio pra construir, não de quem matou indio pra roubar o que tinha ali. matar indio, mas no modelo americano, deu no final em animal collective. e em dilla, e em jazz, e em beach boys. deu na construção de uma cultura de fato. a publicidade é amiga do hipsterismo, mas aqui o efeito é devastador, ou melhor, esterelizante, lá acaba sendo criada uma funcionalidade equilibrada com evolução real. o brasil foi bem em musica nos anos 60/70, basicamente por causa de um acidente intelectual pré-publicitário.

Diego: qual foi o acidente?

eu: o fato das lideranças intuirem basicamente tudo isso que estou falando. serem, em um primeiro momento, reais aventureiros, muito mais da música do que da política (ensinam tudo no filtro da política, é errôneo): caetano veloso, arnaldo e milton nascimento, fora os que estavam envolta, que sabiam se relacionar com um sistema de lucros que era ainda insipiente, praticando lá o que hoje seriam tentativas de suicidio, por não acharem dinheiro tão interessante quanto a aventura e por não acharem graça em promoção tanto quanto achavam em relação à autoria, inclusive a de uma (própria) imagem. ganharam fãs que ajudavam tb, porque a sociedade brasileira de uma forma geral tava bem melhor, e, graças à repressão, mais aberta à noção de aventura, a “coisas difíceis”, do que a de hoje está. detesto essa geração que se criou nos anos 80 com campanhas inteligentes do olivetto, que elegeu coisas como chaves e roberto carlos a culto e que critica o que é “elaborado demais”, “sofisticado”, “hermético”.

a publicidade zuava menos o molho tb, porque era embrionária. quando o modo de vida publicitário engrenou no brasil (redemocratização), aí ficou feio. porque o país começou a se articular pra pertencer ao “mundo real” do consumo, mas sem uma cultura sólida embaixo nem condições sociais (governo mecenas) que garantiria que a arte sobrevivesse. digo sem pestanejar que não houve um, um sequer, disco brasileiro nos anos 80. nem nos 90.

Diego: é, vc não gosta de fellini, né? te perdôo

eu: outra parte do acidente: quem estava na presidência das majors eram pessoas que viam naqueles aventureiros potenciais de grana, mas compartilhavam com eles visões sobre arte. um paísão estatizado, de militares, não precisava da iniciativa privada dizendo e ditando (de forma errada, ingnorante, inculta) que música poderia dar uma grana preta, ser pro povão, etc. hoje, o que rola um pouco é uma miopia de volta ao setentismo desse clima. eu acho o disco do lucas santtana do cacete. mas é um absurdo que não se fale dele com a ressalva de que é muito cagado fazer um disco fingindo ser daquele contexto, é muito casa-de-cera, e não observar isso é de um acriticismo imperdoável. entendeu?

Diego: pensando em música (que pra mim é indicativo de saúde) e nesse panorama que, me parece, chega até a te atormentar (fico de cara como vc soa amargo às vezes, e desesperançado), vc acha q a internet q funciona pro hipster gringo pode criar ocidente e humanismo no brasil?

eu: eu acho que a internet brasiliera sempre vai refletir o que o brasil de fato é, assim como o futebol tb. é um pais dominado por canalhas e burros. quem não tem acesso à arte (os pobres em geral, e os caras da corporação, que riem com qualquer piadinha de sexo), estraga, quem tem acesso também estraga, porque odeia a ocidentalidade ao mesmo tempo em que traduz o pior dela. não sou desesperançado, porque nunca coloquei esperanças aqui. mal falo em português sobre a minha musica, embora cante em português. o que no brasil teve de elevado, foi acidental. quem sabe esteja mais um acidente vindo aí, mas acho difícil. por isso estou sozinho, e realista. falando de saúde, se tem uma coisa que a música me ajuda a ter é sanidade.

tiro williams

Postado em Uncategorized em Novembro 30, 2009 por Claudio

o indie rock brasileiro demorou uns 15 anos para fazer um clássico completo. o atraso da chegada da estréia do tiro williams à cultura brasileira revela:

1- o atraso da cultura brasileira.

2- o fracasso geral da nova música brasileira pseudo-humanista, estatal etc, porque perder prum disco de 95 em 2009 é que nem perder pro botafogo.

3 – uma excelente figura fagneriana-belchiorista reinventada em guitarras pesadas que é o líder da banda, alguém que não sei o nome, mas tem uma veia para a canção que, raramente hoje no brasil, não parece artificialista (ou seja, em busca de agradar à sensibilidade publicitária, ou, pior, de se adequar à sensibilidade estatal cujas bases jornalistas como pedro alexandre sanches, ilustrators em geral têm construído).

4 – um dos 5 melhores discos brasileiros do ano, lista que na verdade não poderia existir, se guiando por esse blog. mas existe, e eu me desmoralizo, afinal a música brasileira, de exceção, até que vai bem (zeca viana, buon giorno luamada, pullovers, tiro williams, etc).

m.i.a > mia

Postado em Uncategorized em Novembro 15, 2009 por Claudio

embora a sensibilidade third-worlder seja uma parada deveras cafona, eu não estou entre os que desprezam a mia, as pistas melhoraram desde que nerds do primeiro mundo inventaram a exploitation espertinha da favela, ou melhor, da comunidade.

mas ok, o fato é que mesmo eu achando preza, a mia, sem pontinhos, não fez e vai ter que viajar muito de casta em casta pra fazer qualquer coisa que seja vulgarmente tão importante quanto cornonstipicum, disco da classe de 78 (convencido cada vez mais de que se trata de uma das melhores da história, senão a melhor) que eu não conhecia e vim a conhecer recentemente, de uma banda argentina chamada m.i.a.

argentina 78, aquela ditadura casa-de-cera, copa do mundo roubada em estádio sujaço de serpentina branca e esse disco aqui, um dos maiores da história, disco pra ficar descobrindo um ano todo. é um disco que fica berrando: “fui feito em estado de graça!”, e isso é foda. fim do piano, fim da linha no art rock dos anos 70. mesmo ano do of queues and cures, do national health, aliás, tb não conhecia direito até o começo do de 2009.

galera que transcende escutando coisas tipo guizado, tortoise e outros guevarismos new age do skate rock achando bem louco, poderia tomar essas duas pílulas de graça, tá aqui a dica de lambuja, pra ver se desperta pra música de exceção.

o disco pode ser encontrado com 11 músicas, mas as 4 do fim (bônus tardios) não valem. são 7 mesmo.

in the gardens de não sei o quê

Postado em Uncategorized em Novembro 12, 2009 por Claudio

começando a ficar com medo de ter minha cabeça virada por esse novo disco do sleeping states. tem algo lá, breathing space, que é o exemplo, para o mundo, de pop-clássico mais moderno since two weeks. a diferença é que ela não desequilibra o disco de maneira berrante. parece ser um disco mais (odeio essa palavra) coeso esse. mas não sei ainda se gosto tanto.

isso é bom

Postado em Uncategorized em Novembro 6, 2009 por Claudio

1 mês e ainda não consigo ter a mínima idéia do que penso ou sinto sobre o disco do flaming lips.

feel good together

Postado em Uncategorized em Novembro 6, 2009 por Claudio

belíssimo disco de indie rockkk esse do drummer (banda de ohio), de uma elegância que torna tudo muito direto, e ao mesmo tempo sugestivo de desvelamentos futuros. você é sutilmente convidado a rechecar a força e a eletricidade, à primeira vista até banais, de guitarras e melodias que lembram todd rundgren, wolf parade, built to spill… de repente elas ficam quentes.

pura música americana whitey, dessa que vai ser reconhecida daqui três gerações como um triste retrato de uma nação atrasada e saudosista. triste premunição, aliás, visto que é grande música, de uma cultura que sabe via de regra atuar com muito mais maestria (com mais e mais interessante eletricidade eu diria) na operação da tradição do que a nossa.

disco foda. um dos melhores do gênero em 2009.